Qual internet o seu tempo está patrocinando?

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Nesta semana, o G1 divulgou uma reportagem sobre a fábrica de Fake News – O Notícias Brasil Online – contando sobre os bastidores das produção de conteúdos falsos e, principalmente, afirmando que a Marcela Ross, principal “jornalista” que assinava as pautas sobre a Lava Jato desde de fevereiro de 2018, na verdade não existe.

Para disseminar os conteúdos publicados no site, os sócios usavam mais de 20 páginas no Facebook, como “Operação Lava Jato – Apoio o Juiz Sergio Moro” (com 600 mil curtidas) e “Brasil na Lava Jato” (com 391 mil curtidas), para propagar os conteúdos com o único objetivo de gerar tráfego para o site e, assim, ganhar dinheiro com os acessos.

Em todas as minhas aulas de mídia/marketing digital, faço questão de explicar alguns modelos de negócios que sustentam os grandes sites que usamos “gratuitamente” todos os dias, como Facebook, Google, sites de notícias e etc. Também falo sobre os sistemas de anúncios de cada um deles, tais como Google Ads, Facebook Ads e mídia programática.

Existe uma máxima que diz que “Se você não paga pelo produto, o produto é você“. O tempo que gastamos dentro de uma plataforma são transformados em dados. Quem nós somos, o que gostamos, o que compramos e o que queremos comprar são identificados de acordo com o nosso comportamento online. As empresas que aprenderam a transformar esses dados em dinheiro são as que hoje dominam uma grande parcela da economia do mundo, como Google, Facebook, Tesla, Amazon e Microsoft.

Para explicar o título deste artigo, irei usar o modelo de negócio do Google. (também é facilmente adaptado para qualquer um dos modelos de anúncios que citei acima). É importante entender a diferença entre Google Ads, Adsense e como funciona o mundo dos produtores de conteúdo.

O Google Ads (antigo Google AdWords) é o sistema utilizado para a compra de palavras-chave que possuem relação com o seu negócio. Se você tem um site que vende tênis, é provável que uma pessoa que procura por “Tênis N” no Google possa ser um cliente em potencial para você. Para esse sistema funcionar, o anunciante compra a palavra-chave “Tênis N” e quando o anúncio é clicado ele paga para o Google em troca desse acesso ao site.

Em alguns formatos de compra, é possível configurar esse mesmo tipo de tráfego de interesse dentro de outros sites que são “parceiros do Google”. Depois de procurar pelo tênis no Google, mas decidir não comprar o produto naquele momento, esse potencial cliente pode ver um banner em um site que faz parte da rede do Google e resolver de fato comprar o produto. Ao serem clicados, esses anúncios também remuneram o Google e o dono do site.

E é dessa forma que os produtores de conteúdos são remunerados, seja criando um site e publicando notícias, seja criando um canal no Youtube e publicando vídeos. Ao criarem esses espaços de publicidade e gerarem tráfego para os anunciantes através desse espaço, os produtores de conteúdo são remunerados pelo dinheiro que atraem para o Google.

Qualquer um pode criar um site e se inscrever no sistema do Google Adsense. Ao fazer isso, você disponibiliza para o Google um espaço para que ele possa fazer anúncios para quem chega até seu site e, em troca, uma parte da verba desse anúncio vai para o dono do site e outra parte fica com o Google.

Na matéria citada no início deste artigo, o G1 afirma que o site “O Notícias Brasil Online” é remunerado via Google Adsense. E para eles é fundamental gerar cada vez mais acessos ao site, mesmo que para isso eles tenham que publicar notícias falsas como “94% da população brasileira apoia intervenção militar” ou “Brasil está em estado de sítio”.

Cada vez que você gasta seu clique e, principalmente, seu tempo acessando sites com notícias sensacionalistas, polêmicas ou ainda em sites que te obrigam a ler a notícia por meio de slides (fazendo com que você navegue por várias páginas diferentes para conseguir ler as informações completas), na prática você está alimentando um sistema que foi desenhado para te expor a mais conteúdos e, claro, mais espaços para aplicação de publicidade e monetização de quem produziu esses conteúdos.

E, assim, ajuda a alimentar uma internet que não traz nenhum benefício para a sociedade.

Para participar do programa do Google Adsense, é preciso respeitar várias regras. Em uma matéria sobre Fake News feita pela Globo, a empresa afirma que não comenta casos específicos, mas que leva o “fenômeno da desinformação muito a sério”. Em nota, a empresa diz que trabalha para manter o “sistema de anúncios livre de conteúdos ruins, especialmente aqueles que buscam enganar as pessoas”. O Google afirma ainda que atualizou as diretrizes para impedir que os sites “exibam anúncios do Google em conteúdos enganosos”. A empresa pode notificar os donos dos sites, que podem entrar para uma lista negra ou podem ser suspensos.

“Descobrimos práticas enganosas observando os padrões de tráfego, o conteúdo em si e a apresentação geral da propriedade web. Também confiamos nos usuários para denunciar sites que eles acreditam estarem violando nossas políticas”, afirma a empresa, sem citar nomes.

O Google diz que, no ano passado, bloqueou mais de 12 mil sites que copiavam e duplicavam conteúdo de outros sites. Outros 650 sites foram banidos do sistema de anúncios e quase 90 mil sites entraram numa lista negra por violarem a polícia de AdSense.

Na mesma matéria sobre Fake News, a Globo também conversou com o Facebook. A empresa também declarou que não comenta casos específicos, mas disse que as notícias falsas têm sido motivadas por questões econômicas e políticas. Segundo a gerente de produto da empresa, Tessa Lyons, o Facebook tem diminuído o alcance orgânico de “conteúdos de baixa qualidade como caça-cliques”, deletado contas e conteúdos que violem as regras e informado os usuários sobre os conteúdos que eles veem na rede social.

“Nós também agimos contra páginas inteiras e sites que repetidamente compartilham notícias falsas, reduzindo toda a sua distribuição no feed de notícias. E como nós não queremos fazer dinheiro a partir da desinformação ou ajudar os criadores dessas histórias a terem lucro, essas páginas não podem rodar anúncios na plataforma ou usar nossas ferramentas de monetização como o Instant Articles”, ressalta trecho do texto.

Essas notícias falsas crescem todos os dias justamente porque “funcionam”. Existem vários estudos que ensinam como atrair nossa atenção, curiosidade e consequentemente, nosso clique.

Entre as construções de texto que mais funcionam para esse propósito está a de não passar uma informação completa no título da publicação – os famosos caça-cliques. Você já deve ter visto alguma publicação do tipo “você não vai acreditar o que essa mulher foi capaz de fazer“, que deixam margem para uma parte da história que o título não conta ou ainda fazem títulos sensacionalistas, como o exemplo da matéria citada no artigo em que os donos do site realizaram uma enquete apenas dentro do “O Notícias Brasil Online” sobre a intervenção militar e depois divulgaram que “94% da população brasileira é a favor da intervenção militar“, o que obviamente não é verdade.

Entendendo como funciona esse sistema e como são monetizados esses criadores de conteúdos, cabe a nós o policiamento para não acessar esses tipos de matérias, nem assistir vídeos que incentivam um tipo de pauta não saudável, para dizer o mínimo.

Nessas horas, vale procurar em fontes jornalísticas de confiança para validar a matéria e principalmente, para remunerar com o seu tempo um jornalismo de verdade.

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